O que me pegou para querer debater sobre isso, foi um comentário que dizia (em inglês) o seguinte:
Não apenas a [...] é uma empresa muito menor do que a Ruby Rose, como a maquiagem não é um item de necessidade. Mesmo que você não tenha condições financeiras, você não precisa daquela paleta — especialmente se isso ocorrer às custas de uma marca *indie* menor. Você está fazendo mil malabarismos para defender o roubo porque você mesma é uma ladra.
Na hora um lado de mim pensou "soa tão elitista você falar algo como, se você não pode pagar isso, não é pro seu bico". Mas eu queria refletir um pouco melhor sobre a situação, porque estamos falando de uma zona moralmente cinza, que envolve uma marca indie (consequentemente uma marca que está lutando para se manter no mercado), uma grande corporação (no caso a Ruby Rose), um mercado negligenciado (Brasil), e uma elite que fica "gatekeeping as coisas" no argumento de "não é necessidade, então você não tem direito ao acesso".
Primeiro ponto que vou tentar analisar é a questão Grande Marca x Marca Indie. É errado uma grande corporação canibalizar o mercado de uma empresa indie. A empresa indie não tem como competir nem financeiramente, nem em escala de produção, e acaba sendo muito prejudicada. Exemplo disso foi quando a Huda Beauty (uma marca gigantesca) copiou a marca indie Beauty Bakerie (o conceito visual da identidade e tudo mais). Porém, o mercado de ambas era o mesmo, o que prejudicou a Beauty Bakerie.
Nesse caso em específico, eu pesquisei aqui e a Ruby Rose, apesar de ser uma empresa grande, o mercado dela abrange Brasil (principalmente), America Latina, e Leste Europeu. A comercialização nos demais países da Europa é mais por redistribuidores independentes, normalmente focados no público brasileiro. Já a marca indie, entrega na Europa Central, nos EUA e Austrália, e outros locais, mais nessas regiões mesmo. Ou seja, não é um mercado que conflita exatamente. Até porque, se eu sou uma pessoa brasileira que mora na Europa, eu muito provavelmente daria preferência para a marca indie. Então, não é que nem o caso da Huda e da Beauty Bakery, onde as duas competiam no mesmo mercado, e vendiam na mesma vitrine.
A questão aqui, é que estamos falando do mercado de maquiagem no Brasil. Apesar de ser um dos maiores consumidores de produtos de beleza e estética do mundo, o Brasil é bastante negligenciado por marcas de fora. Inclusive a Huda Beauty, uma gigante da indústria, chegou ao Brasil oficialmente nesse ano. Até pouco tempo atrás (vou dizer que pouco tempo, porque é minhas memórias de adolescente), tínhamos apenas as marcas nacionais como Avon, Natura e Boticário (que eram de certa forma inacessíveis para a grande maioria) e marcas "do Paraguai" (quem não lembra dos estojos de maquiagem com tudo dentro?) que não eram necessariamente regularizadas.
Daí então, começaram a surgir marcas nacionais ou vindas de fora que se consolidaram no mercado nacional. Tinha Daillus, Vult, Luisance, Ruby Rose, dentre muitas outras. Essas marcas começaram aos poucos no mercado, com maquiagem baratinha que ninguém botava fé. Porém, com o tempo, essas marcas se modernizaram, a qualidade dos produtos melhorou muito e elas se consolidaram ao entregar fórmulas ótimas por um preço que o público geral realmente consegue pagar.
Nesse ponto, pra mim, a Ruby Rose se destaca. Porque eles sempre trazem produtos de qualidade muito boa por um bom preço. Eu tenho muitas coisas da marca, gosto bastante de tudo que experimento deles. E mesmo sendo uma grande marca, algo que normalmente eu não defenderia, inevitavelmente eles ajudaram a democratizar a indústria da beleza no Brasil.
E agora falando desse caso, apesar de tudo, estávamos com uma grande deficiência de maquiagens de um nicho mais alternativo. A maioria das marcas ainda insiste em lançar tons de bege e nude. Encontrar marcas que tivessem maquiagens mais coloridas, para um público mais alternativo, era algo difícil. E quando tinha, eram marcas por exemplo a Contém 1G, que cobra R$170 por uma paleta pequena ou a Catharine Hill que cobra R$120 na paleta colorida. E a Ruby Rose veio com essa proposta na linha Wonder. E mesmo sendo um dupe de uma paleta de uma marca indie, ela tornou acessível para nós, consumidores brasileiros, uma coisa que dificilmente conseguiríamos comprar. Isso é necessariamente ruim? Tornar acessível algo, sem (teoricamente) atrapalhar o criador original? Até porque a Ruby Rose só se inspirou nas cores, não no conceito como um todo, não foi uma cópia fiel.
Daí entra um pouco a questão do "maquiagem é necessidade"? Será que a moça ali tem razão ao dizer que não precisamos de algo que não podemos comprar? Bem, aí já começamos a entrar na questão do elitismo, que é onde eu queria chegar.
A maquiagem em decorrência da autoexpressão pode até não ser um item de sobrevivência, como comida. Porém, são coisas que fazem parte da dignidade humana, ou seja, nossa vivência. E impedir que uma pessoa possa se expressar e usar as tendencias atuais porque ela não tem acesso financeiro é meio que... Criar uma segregação cultural. Onde o acesso ao consumo das tendências é um privilégio da elite, das classes mais altas.
Afinal, as classes dominantes usam da estética e do consumo para afastar as classes de menor renda. Um "não é pro seu bico" na prática. Enxergamos isso em várias marcas de luxo ou marcas menores que tem uma proposta mais artesanal, mais personalizada. E querendo ou não, o público europeu é um público extremamente privilegiado nesse aspecto, em comparação ao público brasileiro. Tanto para consumir marcas grandes, quanto para marcas indie (como a que estamos debatendo). Eles podem comprar facilmente coisas que pra nós brasileiros, é apenas um sonho distante. E acho que é aí que se traça a linha. Porque eu não posso ter acesso a isso? Eu sou menos digna como ser humano? Eu preciso ser criminalizada por querer nem que seja um pouquinho do que elas podem ter tão facilmente? Não quis soar tão dramática mas, quando a gente expande a discussão, podemos pensar em várias coisas que nos são negadas o direito, simplesmente por nossa renda ou local que vivemos. Isso não é legal.Acho que o que pegou nessa questão é que... Quando a Ruby Rose fez vários dupes da Huda, ninguém falou nada, pois era uma grande corporação x uma corporação maior ainda. Porém, quando trazemos a discussão para uma marca indie, fica difícil definir o que é certo ou errado. A indignação das pessoas europeias com o dupe é válida, porém vem de um lugar onde o acesso é dado quase como garantido, enquanto minha escolha é limitada apenas a uma marca que decidiu atender o mercado de onde estou.
Eu entendo que uma marca indie, que produz em pequena escala e tem altos custos cobra valores maiores porque precisa sobreviver. Sem falar que, com uma dificuldade maior de distribuição, ela entrega onde dá. O problema nisso, é os consumidores, com melhor poder de escolha que podem adquirir a marca (por questão de localização ou de custo), transformarem o produto em uma régua moral. Um jeito sutil de dizer "se você não pode adquirir, isso não é pra você, você é uma pessoa terrível se consumir". E a própria marca pareceu se posicionar dessa forma, e talvez por isso eu tenha ficado com tanta raiva.
Portanto, eu, Niara, sem muito peso na consciência, vou comprar da Ruby Rose e continuar comprando. Maquiagem pra mim é uma extensão de quem eu sou, da minha expressão individual, é meu hobbie. Porque mesmo sendo uma grande marca, é a única que teve a dignidade de chegar até mim, onde estou na sociedade. Não vou defender quem nunca nem olhou pro meu lado. Sinto muito por isso, vou me permitir ser egoísta dessa vez.
Acho que na verdade, nesse caso, não existe muito certo ou errado. Ou talvez exista e eu não tenho a maturidade suficiente para bater o martelo, ainda.
(Inclusive isso me deu uma ideia muito boa para fazer um post, de como as grandes indústrias conseguem se aproximar do público de baixa renda e explorar ele, citando até mesmo tema de alimentação, como já falei sobre anteriormente. Mas isso é assunto pra outro post.)
E acho que é isso, a reflexão do momento.
Edit: DE-TA-LHE. Pelo o que vi no instagram, a linha Wonder está sendo lançada até então, apenas no Brasil! Ou seja, o lançamento é ainda mais nichado para nós, e muito dificilmente afetaria alguma coisa da marca indie.


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