11 junho 2026

Ver o lado bom é diferente de positividade tóxica...?

Me peguei pensando na situação do carro ontem. Lidar com situações complicadas não é fácil. E as vezes eu vejo discursos falando que temos que ser agradecidos com tudo, que não podemos sentir tristeza, raiva ou frustração, a famosa positividade tóxica. Esta, cria até um sentimento de culpa no qual nos sentimos mal por nos sentirmos mal.

Ainda assim, depois que tudo passou, apesar de hoje eu ainda estar chateada, e pensando como vou consertar esse carro, eu acabei dizendo para mim mesma algo como "ainda bem que consegui manter a calma suficiente pra chamar o reboque", "ainda bem que eu tenho seguro", "ainda bem que parou gente pra me ajudar a empurrar", "ainda bem que meu namorado pôde ir me acompanhar" e "ainda bem que o moço do reboque foi gente boa". Uma sequencia de "ainda bem" que não necessariamente me deixou menos chateada, mas me permitiu avaliar a situação como um todo, talvez me fazendo lamentar menos do que eu lamentaria se ficasse focando apenas o "quão azarada fui pelo câmbio do carro soltar em plena avenida". 

E daí então fiquei tentando entender onde é o limite entre o otimismo e a positividade tóxica. Até que ponto os "ainda bem" param de ser "avaliando a situação" e começam a ser "tentativa desesperada de argumentar sobre uma situação"? Qual o ponto onde você simplesmente tem que sentar e dizer "e, isso é horrível e não tem recurso". É complicado, não é mesmo?

Pensando nisso, resolvi pesquisar um pouco sobre o que é otimismo x positividade tóxica. Encontrei dois termos interessantes que nunca tinha ouvido falar sobre, sendo o primeiro, as meta-emoções. Trata-se de sub-emoções, emoções que temos sobre outras emoções, como por exemplo, vergonha por estar triste ou algo assim. 

Daí então, quis ler um pouco sobre a relação de meta-emoção e ansiedade. A forma que uma pessoa se sente sobre a própria ansiedade, e como isso pode se tornar uma bola de neve e até mesmo piorar os sintomas. Uma ansiedade sobre a própria ansiedade. O que é curioso, pois passei por isso recentemente, cheguei até a comentar isso em outro post.

Como tive uma fase na vida na qual sofri mais com a ansiedade, período que ainda me desperta um medo de voltar a ficar como eu estava na época, apenas o fato de eu me sentir ansiosa (por motivos diversos, como por exemplo, dirigir) já me deixou muito apreensiva, sentindo que eu não seria capaz de fazer o que eu queria fazer, que a ansiedade iria me "jogar para baixo" novamente. O medo de voltar a sofrer o que sofri me deixou ainda pior e despertou ainda mais impulsos para tentar regular isso, que me deixaram mais perdida e confusa. 

Porém, dessa vez, eu entendi que a minha ansiedade era um impulso natural do meu cérebro em um aprendizado. Que o cansaço mental e o estresse eram uma consequência do processo como um todo, e não a minha ansiedade tentando me derrubar. A partir disso, eu parei (um pouco) de ter medo da ansiedade por si só, e isso já foi o suficiente para me deixar mais tranquila e menos ansiosa. Parece confuso e não é uma ideia absoluta. As vezes eu ainda sinto medo, mas ainda assim faço o possível para organizar minha cabeça e encontrar as ferramentas mentais que podem me ajudar com isso.

E aprender sobre esse termo me esclareceu ainda mais coisas, as quais posso usar como aprendizado quando eu estiver tentando lidar com as minhas emoções. Usando como exemplo a experiência do carro quebrado, separar o que é um medo imediato físico (o medo de estar no meio da avenida em um lugar perigoso onde pode ocorrer um acidente) e medo sobre uma emoção (o medo de não ser capaz de resolver a situação). Quando fui sair do carro, eu estava tremendo por completo (por causa do medo de um acidente), mas consegui pensar "esse medo é uma resposta imediata à situação, você não está em pânico, você consegue resolver isso, mesmo tremendo e querendo chorar, pegue o triangulo no porta malas, se afaste do carro e coloque ele" (no fim das contas, não foi necessário pois duas pessoas se ofereceram pra me ajudar a empurrar e tirar do meio da avenida). E acredito que daqui para frente talvez eu possa fazer uma avaliação melhor das situações sabendo separar esse tipo de sentimento e emoção.

O segundo termo que ouvi enquanto pesquisava é a "aceitação radical", que é quando você aceita a realidade do jeito que ela é, por completo e sem lutar contra ela, o famoso "não dá pra sofrer pelo o que não dá pra ser mudado". Mas não é um conceito conformista, e sim analisar e aceitar a gravidade dos fatos de acordo com o que são, o que teoricamente, talvez sirva para tirar o peso de sentimentos de desespero que podem desorientar em um presente momento. Cheguei a pensar se esse conceito não invalidaria meu sentimento no momento, mas pelo o que entendi, depois de ler mais um pouco, vi que não precisamos estar bem com algo ruim que aconteceu. Aceitar não significa estar bem com isso. Os dois sentimentos são legítimos e simultâneos. 

O que me lembrou uma lição importante que meu pai me ensinou, que eu tento levar para a vida: "o que não tem remédio, remediado está". E talvez, seja isso, a gente aumenta o sofrimento, por antecipação pelas coisas que não conseguimos resolver, de forma que entramos em desespero. Mas, tudo bem sentir a ressaca emocional de "eu tenho direito de não estar bem" (contanto que isso não seja descontado em quem não tem nada a ver, claro).

No fim, a conclusão que consegui tirar, é que de certa forma, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Saber "organizar" os sentimentos e analisar a situação não é uma forma de se dessensibilizar. Talvez torne as coisas até mais justas, pois você sente o sentimento apropriado para a situação, na intensidade que ele precisa ser sentido, ou talvez saber melhor como processar posteriormente. Tipo eu, quando cheguei em casa, durante o banho eu chorei porque estava processando o medo que senti. Depois ri, porque achei graça da situação, quando logo depois de chamar o reboque, liguei pro meu pai, chorando e falando que já tinha resolvido. E no fim, acho que tirei um bom aprendizado, pois isso me levou a ler sobre essas coisas que descobri nesse post. 

E espero que isso me ajude a entender cada vez mais a mim mesma, e também a compreender melhor as pessoas à minha volta.

Enfim, só um adendo final e nada a ver, eu tive um sonho hoje com um espaço liminar. Era todo branco e aparentemente aberto, mas tinha paredes altas. Fui parar lá depois que um elevador deu problema (sempre que eu sonho com elevador, dá ruim). E eu pensei "ah pronto, vim parar num espaço liminar".

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