Esses dias pedi na Temu (importante lembrar, vou elaborar daqui a pouco) uns patches para reformar uma jaqueta minha que está ficando meio velha. Conversando com minha irmã (não é minha irmã de sangue, é irmã do coração) sobre isso, comentei algo como "eu queria ter comprado alguns patches mais punks (me referindo a símbolos de anarquia, acab e etc.), mas não tenho a disposição para discutir com alguém que vier argumentar comigo, e acho que isso me torna indigna, então peguei uns patches mais subtle" e ela concordou comigo, comentando "justo, se você vai ostentar punkisse, tem que esta disposta a sair na mão punk".
Depois, pensando melhor nisso, eu cheguei a conclusão que "Não é bem uma falta de disposição. É uma falta de dialética e aprofundamento sobre os assuntos em um nível que eu consiga manter um argumento em uma discussão". E de fato, eu não sou muito estudada a ponto de conseguir manter um debate. Eu tenho as noções mais básicas de relação social e o sistema que nos abrange. E acho que mesmo que eu tivesse esse conhecimento, como eu iria conseguir formular isso a ponto de bater de frente com os conservadores que me cercam?
Porque na prática, eu sou só uma trabalhadora solitária, no sentido de, não tenho pessoas ou um grupo que compartilha da mesma ideologia que eu para ter algum tipo de apoio. Todas as pessoas na minha volta são "de direita", inclusive no meu trabalho, na minha família e na família do meu namorado. Não estou falando de político de estimação, inclusive a política no Brasil me faz apoiar ideais anárquicos (vou elaborar também, talvez nesse post, talvez em outro). Estou falando de conceitos socioeconômicos e que e referem a direito das pessoas e de distribuição de renda.
E realmente, fala-se que essas ideologias "de esquerda" costumam ser muito elitizadas porque exigem um calhamaço de teoria para se ter o direito de falar sobre. Eu acho que não é bem assim. Quando você está discutindo contra algo que está profundamente enraizado na sociedade, você precisa sim de ter um estudo para conseguir rebater isso, porque é tanta coisa que envolve, que é difícil a discussão se manter em um nível mais superficial.
Vou até usar de exemplo um vídeo que eu vi esses dias. Um cara afirmava que o sol tinha a mesma temperatura do corpo humano. Os argumentos dele, "a gente consegue ficar na praia de boa", "quando o astronauta vai pro espaço ele joga a gota no ar, a gota congela", "no pico dos montes tem neve". E coisas assim. E eu pensei algo como "mano, é tanta coisa que precisa se explicar, de física, termodinâmica, pressão atmosférica só pra te dizer que você tá errado". Eu mesma só sei o básico do básico, não saberia refutar apropriadamente, e não é porque eu concordo com qualquer parte disso, mas é porque não tenho estudo o suficiente pra refutar. Eu sei que está errado, porque sei o básico, mas não sei aprofundar. E acho que esses debates sociológicos caem nesse problema. A gente sabe que tem algo errado, mas é tanto estudo e argumento pra conseguir provar que algo está errado, que não tem como você não se "intelectualizar" pra conseguir debater algo.
Estando nessa situação de falta de repertório intelectual, pensei "O que euzinha posso fazer (além de estudar) para lutar contra o sistema, nem que seja um pouquinho?". Porque, como eu disse, em posts anteriores, quando falo "o sistema", estou me referindo ao capitalismo, o sistema socioeconômico baseado no direito a propriedade privada, no lucro e acúmulo de capital. Ele está na nossa sociedade faz tanto tempo, que é uma coisa que está intricada na mente do ser humano, a ponto de não perceber o tanto que é influenciado por ele.
A muito longo prazo, um sistema individualista como esse acabou moldando a sociedade de uma forma que um ser humano só tem utilidade se ele gerar/acumular lucro. Quanto mais lucro um ser humano consegue acumular, mais valor ele tem diante da sociedade. E a moeda de troca nem sempre é o dinheiro, ela também é o tempo e o trabalho/mão de obra que você consegue gerar. E ao ter pessoas que acumulavam uma grande quantidade de riquezas, ao justamente tomar o tempo, dinheiro e mão de obra de outras pessoas (seja através de exploração ou escravidão). E essa riqueza foi transferida por gerações, e com o tempo, a humanidade se dividiu entre aqueles que produzem e aqueles que usufruem dessa produção. Essa divisão de produção versus usufruto é tão confusa e manipulável que muitas pessoas se confundem sobre qual é o lugar delas perante ao sistema. O capitalismo é tão intrincado na sociedade que até sistemas socioeconômicos que na teoria iriam contra esse ideal de acúmulo (como socialismo ou comunismo), foram contaminados pelo capitalismo, favorecendo governantes corruptos e novamente, valorizando o ser humano de apenas por sua capacidade produtiva.
Enfim, esse é o resumo do resumo do resumo básico do conceito, tem tantas subcamadas que eu poderia ficar escrevendo aqui até amanhã, em um texto que engloba só as coisas que estão na minha cabeça, que como eu disse, não são muitas. O ponto principal é que, o capitalismo nos valoriza pelo o que produzimos. O que no final das contas, nos torna algo que já comentei em outro post, engrenagens descartáveis, no qual estamos produzindo sob a ilusão do usufruto, promovida por uma propaganda que nos acompanha do momento que nascemos até a morte.
Sabendo de tudo isso, e sabendo que isso é algo INFINITAMENTE maior que eu, voltamos a mesma pergunta "O que uma trabalhadora solitária pode fazer para lutar contra o sistema, nem que seja um pouquinho?". A principal resposta para isso, quando falamos sobre ações individuais, é a consciência de classe/indivíduo, a responsabilidade ambiental e o consumo consciente.
A parte da consciência de classe e indivíduo é o que eu considero o pilar da luta. Em um sistema que tenta nos desumanizar, saber quem eu sou como indivíduo e qual a minha relação com o mundo é algo de extrema importância. Também saber a forma que estou inserida na sociedade, meus privilégios e minhas desvantagens, é o que vai me permitir ter um olhar mais empático em relação a pessoas que estão em posição de maior vulnerabilidade social que a minha. Hoje em dia, infelizmente falta para as pessoas essa consciência de classe. O que acontece, é que as pessoas normalmente acham que estão em um lugar "melhor" do que elas realmente estão, portanto que não devem sem preocupar com quem está "abaixo", sendo que a verdade é que está todo mundo no mesmo barco. Eu, ainda bem, posso falar que tenho meus privilégios, uma casa boa para morar em um bairro bom, um emprego estável e uma família que me é apoio e suporte. E justamente por reconhecer isso que apoio políticas que ajudem outras pessoas. Porque sei que um dia posso ser eu a precisar de um bolsa família, de ter que trabalhar em um emprego de escala 6x1, a depender de um SUS. A frase "estamos mais perto de nos tornar moradores de rua do que milionários" é real, e muitos não percebem isso enquanto defendem grandes empresários e milionários, achando que estão mais próximos deles do que uma pessoa que vive em uma comunidade, por exemplo.
A consciência individual também engloba ter a noção do capitalismo de eficiência, que é onde o capitalismo atual tira lucro na exaustão do indivíduo, e faz tudo o que pode para mantê-lo o mais cansado o possível, de forma que ele não consiga pensar por si só. Por isso o mercado defende tanto jornadas de trabalho cada vez mais abusivas. É um controle da população através do cansaço. Por isso, descansar e se permitir não ser eficiente 100% do tempo, é uma forma de lutar.
Eu não estou falando aqui de rejeitar o trabalho. Eu por exemplo posso falar com propriedade, pois trabalho em uma empresa na qual eu tenho o privilégio de ter uma relação respeitosa e ser tratada como ser humano, uma relação de parceria. E da mesma forma, entrego o melhor que posso, as vezes cometo erros por causa do grande fluxo de informações, mas tento sempre dar o meu melhor. Ao mesmo tempo, traços meus limites do que me permito fazer. Esse papo de coach de "mentalidade de dono" e "vestir a camisa", na maior parte das vezes só serve para embasar relações abusivas entre empregador e empregado. A gente precisa se dispor a fazer o que a empresa está disposta a oferecer em troca, pois a empresa é tão necessária para o empregado quanto o empregado é necessário para a empresa.
Ainda nessa questão da consciência de indivíduo e descanso, é muito importante que uma pessoa tenha meios de descanso mentais (no caso hobbies) que não envolvam apenas consumir conteúdo mastigado de redes sociais. E ter um hobbie sem precisar do desempenho da perfeição, da exposição e da monetização. Explicando melhor: Hoje em dia, a sensação que dá (coisa que as redes sociais reforçam) é que para você ter um hobbie (qualquer um que seja), você precisa ou investir quantidade grande de dinheiro (alimentando a cultura de consumo), postar nas redes sociais e permitir que as pessoas avaliem seu "desempenho" no seu hobbie. Ou que você monetize, por exemplo, vendendo-o ou fazendo dele uma fonte de renda. E isso é mais uma forma de nos manter exaustos, pois até na hora que deveria ser o descanso mental, estamos nos desgastando ao tentar apenas performar estética, perfeição e produção.
E ainda mais numa sociedade que julga os hobbies femininos como inúteis e supérfluos, eu considero me permitir ter meus hobbies, sem ficar me expondo, da maneira que eu consigo fazer (o famoso pinte feio, escreva ruim, dance desengonçado), e descansar quando estou cansada e me permitir fazer as coisas no meu tempo, é uma forma de protesto individual contra o sistema. E já ouvi muito em relação a isso "você tem tempo quando chega em casa, pode pegar uns freelas/fazer faculdade" ou coisas do gênero. E não é que eu não faça, as vezes eu pego um freela. Mas não me comprometo a isso. E em relação a faculdade, eu pretendo voltar quando achar que eu estou estável em relação ao meu tempo. Evitar ouvir os outros e respeitar meus limites é muito importante.
A responsabilidade ambiental, não to falando só de meio-ambiente e natureza. É uma responsabilidade individual sobre o ambiente físico que me cerca. Isso quer dizer que como eu vivo em um ambiente coletivo, devo cuidar do que está a minha volta em respeito às outras pessoas que vão usar. Isso vai desde não jogar lixo no chão, a manter um banheiro público limpo, tirar a bandeja do shopping e muitos outros. Parece algo básico, mas hoje em dia com a mentalidade do "tem alguém pra limpar/fazer" as pessoas desrespeitam os espaços públicos em uma forma de silenciosamente dizer "eu sou melhor que quem limpa" ou "isso não é problema meu". Falta muito nas pessoas a civilidade de tratar um ambiente coletivo como um ambiente que é de uso próprio da pessoa, e isso reforça ainda mais comportamentos individualistas, que é o que o sistema quer. Quanto mais isolados e egoístas ficamos, mais o sistema se beneficia. Então fazer minha parte e cuidar do que está a minha volta, também é uma forma importante de protesto.
Agora a parte do consumo consciente eu devo admitir que é a mais difícil e é onde eu mais falho. Não só eu, porém a sociedade como um todo. Como eu disse, em uma sociedade cujo nosso valor é medido pelo valor que conseguimos acumular, o consumo é diretamente atrelado a felicidade, em resumo, você só vai ser feliz se tiver como consumir coisas. Essa mensagem é enfiada na nossa mente desde que tomamos consciência como seres humanos.
Então eu estou dizendo que na verdade não podemos consumir? Não se trata disso. O problema do consumo, é que quando ele está intrinsecamente atrelado à felicidade, fica muito mais fácil induzir uma pessoa a consumir coisas que ela não precisa, afim da necessidade de se sentir bem. Trabalhamos em jornadas cada vez mais exaustivas para comprar produtos cuja única função é nos dar aquela descarga de dopamina, para logo serem deixados de lado. E obviamente isso engloba absolutamente tudo: comida, roupas, casa, acessórios, experiências, absolutamente tudo. O capitalismo controla o ser humano através do consumo, o que eu disse lá em cima, a ilusão do "usufruto".
As propagandas criam nas pessoas problemas que elas não tem, mas o produto delas milagrosamente resolve. Os métodos de compra, sites como amazon, shopee, temu, tornam a compra mais fácil. As redes sociais te fazem acreditar que você só vai ser feliz e completo se você comprar aquilo que vê as pessoas postando e consumindo, seja em relação ao trabalho, aos hobbies, tudo. Um grande exemplo disso, é que os influenciadores mais seguidos, são seguidos justamente por ter "muitas coisas" e ostentar uma vida de consumo que muitos consideram como a felicidade plena, uma casa grande, um carro caro, um celular de última geração.
Ou seja, o consumo é a forma máxima que o sistema usa para nos dominar. E quando eu disse no título desse post que "preciso ser mais punk", é justamente pensando que preciso revisar meus hábitos de consumo. Urgentemente. Porque cada vez que eu compro um badulaque ou uma maquigem que eu não vou usar só pelo prazer de comprar, porque "trabalhei, portanto mereço", eu estou me deixando levar. Eu preciso trabalhar em ações simples, que são, pensar bem no que eu realmente preciso e o que estou comprando pelo acúmulo, e preciso usar o que eu compro. Usar algo até o fim, não ter cinquenta opções de uma mesma coisa, comprar de forma consciente, é uma forma de protesto, querendo ou não.
E como todo ser humano, eu sou muito falha nisso. Quando eu assusto, percebo que tem coisas que comprei que nem lembrava que tinha comprado. Dar valor ao que eu compro é uma forma de dar valor ao meu trabalho, portanto a mim mesma. E acho que essa é a maior revolução que preciso no momento. Porque vide início do post, já comecei falando que tinha comprado algo.
Mas, é difícil, e é uma jornada de desapego muito grande que preciso fazer. É algo que eu pretendo daqui pra frente.
E é isso o mini manifesto de hoje.
(Eu ia encerrar esse post por aqui, mas no exato momento que eu escrevia, aconteceu a coisa mais curiosa e irônica do mundo. Meu colega de trabalho, assumidamente de direita, e eu estávamos zoando sobre o quanto que as pessoas trabalham para o "patrão trocar de carro". A IMPRESSÃO QUE DÁ É QUE NO FUNDO, TODO MUNDO SABE SOBRE O QUE EU TO FALANDO, MAS FINGE QUE NÃO.)

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